Após a Suprema Corte derrubar as tarifas “recíprocas” impostas pelo presidente americano, a uniformização em 15% deixa o Reino Unido e a Austrália entre os mais afetados negativamente, enquanto Brasil, China e Índia tendem a ganhar vantagem relativa.

Após meses destacando um acordo comercial vantajoso negociado com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o Reino Unido agora enfrenta o risco de sair como um dos maiores perdedores na reviravolta tarifária promovida pela Casa Branca.
A Suprema Corte dos EUA invalidou recentemente as tarifas recíprocas que variavam por país — baseadas em uma lei de emergência —, forçando Trump a recorrer a outra ferramenta legal para manter pressões comerciais. Em resposta, o presidente anunciou a aplicação de uma tarifa uniforme de 15% sobre importações de praticamente todos os países, por um período temporário (até 150 dias, prorrogável pelo Congresso).
Antes dessa mudança, o Reino Unido contava com uma alíquota recíproca mais baixa, de 10%, o que representava uma vantagem competitiva em relação a muitos concorrentes. Com a nova taxa padronizada em 15%, as exportações britânicas para os EUA podem ficar significativamente mais caras. Analistas do Global Trade Alert apontam que o Reino Unido sofrerá o maior salto tarifário entre os principais parceiros comerciais americanos, seguido por nações como Itália e Singapura.
Especialistas em comércio, como Sam Lowe, da consultoria Flint Global, em Londres, destacam a incerteza atual: “Até que haja orientações claras do governo americano, é prudente assumir que a taxa será de 15%”. Autoridades britânicas estão em negociações intensas para tentar preservar isenções ou manter o tratamento preferencial em setores estratégicos, como aço, farmacêuticos e automóveis — acordos que devem continuar válidos.
A Câmara de Comércio Britânica calcula que o aumento pode elevar os custos de exportação para os EUA em até £3 bilhões (cerca de US$4 bilhões), impactando diretamente cerca de 40 mil empresas. A ministra Bridget Phillipson comentou em entrevista que o governo está dialogando “nos mais altos níveis” com Washington para defender os interesses nacionais, reconhecendo a “grande incerteza” gerada para o setor privado.
A Austrália também aparece entre os mais afetados, pois contava com taxa similar de 10% antes da decisão judicial. Exportadores de produtos variados, como uísque escocês, brinquedos e fantasias, relatam dificuldades adicionais em um ano já marcado por instabilidades.
Por outro lado, países que enfrentavam tarifas recíprocas mais elevadas — como Brasil, China e Índia — devem se beneficiar com a redução relativa para o patamar de 15%, ganhando competitividade no mercado americano.
O novo regime tarifário usa a Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, que permite ajustes temporários em caso de desequilíbrios nos pagamentos internacionais. Apesar das garantias oficiais de que o “status privilegiado” do Reino Unido em certos setores será preservado, o clima de tensão na “relação especial” anglo-americana persiste, agravado por recentes atritos diplomáticos.
Empresários britânicos, como Fraser Smeaton (cofundador de uma empresa de fantasias exportadora), descrevem o momento como “mais um capítulo de turbulência e falta de previsibilidade”, pedindo urgentemente clareza para planejar os negócios.
Em resumo, a manobra de Trump para contornar o revés judicial acabou nivelando o campo de forma desfavorável para quem havia conquistado condições melhores antes — transformando uma suposta vitória diplomática em potencial prejuízo econômico para o Reino Unido e aliados semelhantes.
Fontes: Análises baseadas em relatórios da Bloomberg, Global Trade Alert e declarações oficiais de governos envolvidos.
